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Histórias

Francesco Matarazzo - O maior do Brasil, um dos maiores do mundo

Resenha - Tire sua Lição



As histórias de empresários de sucesso, servem para se tirar lições que nos propiciem aprender o caminho dos vencedores. Desfrute das história dos grandes empreendedores do século passado, os quais foram indicados numa pesquisa realizada com autoridades, empresários e lideranças em nível nacional. Ressalto que estes são merecedores do nosso reconhecimento, principalmente pelo que fizeram por nossa nação.



Veja os pontos de destaques empreendedores desta História. Utilize estas dicas para o seu sucesso!



1 – Constituiu 365 fábricas – Francesco Matarazzo não se acomodou em momento algum, sempre buscou cumprir sua missão de vida. Buscou crescimento pessoal e do país.

2 - Perdeu toda sua riqueza que trazia da terra natal – As dificuldades fazem parte do trajeto dos vencedores. Aprenda a contorná-las. Jamais desista em virtude dos empecilhos que surgem, busque superá-los e será triunfante.

3 - Temperamento inquieto e visionário, obstinado com a idéia de ganhar dinheiro – Não se conforme, busque sempre mais, somente assim sempre continuará crescendo.

4 – Percebendo o sucesso de vendas da banha, decidiu fabricar o produto. No início, entregava em barris, mais tarde, percebeu que ganharia mais se enlatasse o produto – Esteja atento a tudo, sempre há formas de se aproveitar recursos e melhorar processos, isto nos leva ao crescimento.

5 – Concluiu o ensino fundamental – O estudo nos desenvolve e dar subsídio para prosperar. Imagine este empreendedor tendo as condições que temos atualmente. Sua riqueza seria triplicada.

6 – Tinha grande Intuição, montou um moinho de farinha de trigo em São Paulo, num momento que o produto estava escasso – Aproveitar as oportunidades é essencial para se alcançar o progresso. Olhe constantemente para todos os lados.

7 – Ergueu o primeiro grande parque industrial do Brasil – Querer sempre mais é o que nos leva a ser grande. A ambição positiva nos encaminha ao sucesso, desde que não prejudique a outrem.





O maior do Brasil, um dos maiores do mundo.



Conde Francesco Matarazzo: um mito decifrado

Francesco Matarazzo, o imigrante que deixou a Itália para construir no Brasil um dos maiores conglomerados da história do capitalismo mundial



O conde Francesco Matarazzo é costumeiramente lembrado como um dos maiores empresários da história no Brasil, ao lado de outros empreendedores igualmente importantes no início do século 20. Chega às livrarias agora em novembro uma obra definitiva a respeito do conde que ajusta essa percepção. O livro é Matarazzo, do escritor Ronaldo Costa Couto, editado pela Planeta e composto de dois volumes: Travessia e Colosso Brasileiro (360 páginas cada um. Separados, custam 49,90 reais. Juntos, 90 reais). EXAME teve acesso aos volumes, ponto de partida desta reportagem. O material reunido por Costa Couto autoriza a seguinte conclusão: o conde Francesco Matarazzo não foi apenas um dos maiores empresários da história brasileira. Matarazzo foi o maior empreendedor do país em todos os tempos e ainda um dos nomes de destaque do capitalismo mundial. Matarazzo não ergueu dez, 20 ou 50 fábricas. Foram 200. Isso mesmo: 200 fábricas. Ao lado delas, Matarazzo deixou também hidrelétricas e ferrovias -- assim mesmo, no plural --, empresa de navegação, banco, fazendas, milhares de terrenos urbanos e prédios, além de filiais na Argentina, nos Estados Unidos e na Europa. No auge, chegou a empregar 30 000 pessoas. Para efeito de comparação, o Banco do Brasil tinha, na virada do século, 133 funcionários. Atualmente, a Gerdau tem 14 000 empregados. Ao morrer, em 1937, Matarazzo possuía um patrimônio estimado em 20 bilhões de dólares corrigidos aos dias de hoje pela inflação americana. Em terras brasileiras, nenhum capitalista voou tão alto.



Na virada do século 19 para o século 20, o Brasil era assim. Dois terços da população viviam no campo, 65% dos adultos não sabiam ler ou escrever e o produto interno bruto per capita equivalia, em valores de hoje, a pouco mais de 700 reais. Nas cidades, doenças como tifo, sífilis, sarampo e varíola faziam vítimas sem escolher classe social. Em 1900, a esperança de vida ao nascer era de apenas 34 anos. Foi nesse Brasil socialmente adverso que o italiano Francesco Matarazzo desembarcou, em 1881, aos 27 anos de idade, em companhia da mulher, Filomena, e de dois filhos pequenos. No bolso -- há controvérsias -- carregava de 30 000 a 50 000 dólares, em valores de hoje. Um volume até expressivo quando se pensa na imagem clássica do imigrante chegando ao Brasil com uma mão na frente e outra atrás.



Matarazzo começou a vida como mascate e dono de uma venda em Sorocaba, no interior de São Paulo, para onde se dirigiu por indicação de um amigo que ali residia. Passou a negociar farinha de trigo e banha de porco, usada na fritura de alimentos. Em seguida, montou um armazém e uma pequena fábrica na qual resolveu produzir latas para acondicionar a banha a ser comercializada. A embalagem prolongaria a validade de um produto altamente perecível. Foi seu primeiro grande salto. Deixava para trás a função de mero comerciante, transformando-se em industrial. Já em São Paulo, tomou um empréstimo para abrir um moinho. Seguiram-se uma fábrica de óleo de caroço de algodão, uma tecelagem, uma fiação, uma estamparia. Em pouco tempo Matarazzo já integrava o time dos 11 proprietários de fábricas paulistas que operavam com mais de 100 trabalhadores. Interessante é que cada novo centro de abastecimento de matéria-prima resultava em novos produtos comercializados -- um movimento de integração vertical e diversificação.



Os dois volumes da biografia são resultado de seis anos de pesquisas conduzidas por Costa Couto, um economista que gosta de política e chegou a ser ministro de José Sarney. Ao sair do governo, empregou-se no Tribunal de Contas do Distrito Federal e passou a investir seu tempo em pesquisa. Fez doutorado em história na Sorbonne e escreveu quatro livros. Para preparar a biografia de Matarazzo, Couto entrevistou mais de 150 pessoas no Brasil e na Itália. Por opção, dedicou-se a escrever sobre o espetacular enriquecimento dos Matarazzo, desprezando as razões que levaram à pulverização do grupo. Para as pessoas que gostam de negócios, o livro consegue responder à questão mais importante de todas, que é sobre o talento e a sorte de Matarazzo. Costa Couto deixa claro que o empresário possuía as principais características de um vencedor e que a sorte foi um empurrão natural na trajetória de quem caminhava na direção certa. Para ter uma idéia do seu grau de excelência comercial, Costa Couto lista na biografia um único fracasso, registrado em 1924. Tratava-se de um projeto de industrialização e comercialização de pele e gordura de jacaré e capivara. A idéia era tão ruim que Matarazzo a descartou antes que provocasse maiores prejuízos.



Matarazzo mudou-se para o Brasil pela mesma razão que levou outros 3,8 mi lhões de estrangeiros a aportar aqui entre 1887 e 1930. A vida em seus países de origem ia muito mal. Os italianos formavam o grupo mais numeroso, seguidos de portugueses e espanhóis. No seu caso específico, Matarazzo foi empurrado pela crise econômica que em 1881 devastava o sul da Itália -- o que aviltava o rendimento de suas terras e enfraquecia o comércio legado pelo pai, um médico de Castellabate, que morrera oito anos antes. Francesco, que sonhava com uma carreira militar, abandonara os estudos em Salerno para gerir os negócios da família. De certa forma, eis aí uma primeira explicação para o sucesso que fez no Brasil. Matarazzo já tocava negócios na Itália, tinha um pai com curso superior e havia estudado. Para facilitar, aportou num país onde menos de 2% da população de 17,4 milhões de brasileiros podia ser classificada como escolarizada. A competição direta com o empreendedor local de certa forma o beneficiava. Mas há mais do que isso para explicar seu sucesso. "Circunstâncias históricas favoreceram a formação do império Matarazzo", diz Costa Couto. "Tudo o que implantava tinha caráter pioneiro, preenchia uma lacuna no mercado." Se tivesse desembarcado nos Estados Unidos, por exemplo, Matarazzo se confrontaria com um ambiente comercial muito mais competitivo, pois àquela altura os produtos básicos que fabricava já não eram novidade. Teria de ser mais sofisticado e talvez seu capital não fosse suficiente.



O Brasil era um país a ser construído industrialmente. Importava-se de tudo: vidro, máquinas, ferro, cimento, batata, manteiga, toalha, cerveja, tinta, prego, papel. Até foice vinha do exterior. Aço e cimento só começariam a ser fabricados aqui na década de 20. A grande preocupação do governo federal na virada do século era reforçar a exportação agrícola, principalmente de café, açúcar, borracha e cacau, o ganha-pão da elite. Os imigrantes cumpriram um papel fundamental no processo de industrialização, tanto como operários quanto como empresários. Em 1900, nove de cada dez trabalhadores na indústria eram europeus, especificamente italianos. De acordo com dados da Fundação Getulio Vargas, em 1920, 64% das indústrias paulistas eram controladas por imigrantes, quase todos europeus, muitos italianos. Quando estourou a Primeira Guerra, importação e exportação ficaram mais difíceis, bem como a entrada de capital estrangeiro. O país conheceu então uma virada. A pujante elite agrícola, dependente das vendas ao exterior, passou a viver dias mais difíceis. E a nascente indústria nacional deu um salto coletivo. Calcula-se que o PIB industrial tenha crescido quase 10% ao ano durante a guerra.



A história registra grandes casos de sucesso empresarial naquele período, como a família Ermírio de Moraes, dona do grupo Votorantim. Ou as famílias Klabin e Lafer, que começaram em 1899, importando artigos de escritório e tipografia. Quatro anos depois, já produziam papel, segmento no qual até hoje se destacam. Todos se beneficiaram da Primeira Guerra. De acordo com o livro de Costa Couto, Francesco Matarazzo costumava brincar que a guerra não deveria acabar nunca. A diferença entre Matarazzo e esses grupos é que ele foi mais longe (bem mais longe), numa velocidade maior (muito maior).



Outra diferença é que os grupos Votorantim e Klabin continuam por aí, fortes. E o grupo Matarazzo é apenas um registro histórico. A forma como o império se desfez impressiona. Após a morte de Francesco Matarazzo, feito conde por ordem do rei da Itália, seu filho Francisco Matarazzo Júnior, também conde, assumiu o comando dos negócios. Por influência paterna, o conde Chiquinho, como era conhecido, manteve o processo de diversificação dos negócios. Trabalhava segundo a mesma lógica expansionista que tanto sucesso havia feito na gestão de seu pai. Montou uma fábrica de celofane, uma salina, comprou o controle de uma empresa de cimento, abriu uma fábrica de conservas e um banco. O grupo chegou a ter shopping center, supermercado e frigorífico. Acontece que o modelo já não se adequava mais aos novos tempos. No início do século, a expansão fazia todo o sentido, pois Matarazzo era um pioneiro. Mas o cenário mudou. Surgiram grupos empresariais fortes, nacionais e estrangeiros. E as Indústrias Reunidas Francesco Matarazzo (IRFM) passaram a brigar por espaço. Para complicar, a história registra diversos equívocos administrativos que conduziram o grupo ao balanço no vermelho já no final da década de 60. Em 1977, com a morte do conde Chiquinho, o comando do império, já altamente endividado, passou às mãos de sua filha, Maria Pia, que pouco pôde fazer. Os debates sobre crescimento precisaram dar lugar a discussões sobre saneamento e reestruturação financeira. Em 1983, uma dezena de companhias do grupo entrou em concordata. Algumas das empresas ainda existem, mas nenhuma delas tem peso relevante na economia nacional.

Alguns historiadores costumam comparar o peso de Matarazzo na República ao de Irineu Evangelista de Souza, o barão de Mauá, no tempo do Império. Fundador da indústria naval brasileira, Mauá também construiu ferrovias, rede de serviços públicos de iluminação e tornou-se banqueiro. Mas a comparação entre Mauá e Matarazzo deve parar por aí. A obra de Matarazzo está fundada em outro gênero de negócios, centrado na produção de bens rotineiros para os consumidores, em vez de envolver relações com o Estado. Sem saber, é claro, Matarazzo estava construindo o que mais tarde seria conhecida como a economia de mercado. "A imagem do industrial moderno surgiu em São Paulo com Matarazzo", afirma o pesquisador Jacques Marcovitch, professor da Universidade de São Paulo e autor do livro Pioneiros & Empreendedores.

Contemporâneos do Conde

John Rockefeller (1839-1937)

Fundador da Standard Oil, a primeira corporação moderna, Rockefeller descobriu que concentrar exploração, produção, transporte e refino aumenta a eficiência e reduz os custos.Acumulou 190 bilhões de dólares, fortuna recordista na história dos negócios de todos os tempos.

John Pierpont Morgan (1837-1913)

Deve-se ao banqueiro financiador de trustes surgidos com as fusões a capitalização de emergentes corporações, como a General Electric, por meio das bolsas de valores.Até o início do século 20, os investidores consideravam muito arriscado comprar ações de indústrias.

Andrew Carnegie (1835-1919)

Imigrante escocês, fez fortuna com construção e operação de ferrovias nos Estados Unidos. Desenvolveu a produção industrial do aço, a principal matéria-prima na virada do século.

Henry Ford (1863-1947)

Apostou no mercado de massa quando a maioria dos fabricantes de automóveis só pensava em carros de luxo. Desenvolveu o econômico modelo T e a linha de montagem contínua, em 1913. Logo estava produzindo a metade dos carros no mundo.

Matarazzo chegou a ser a quinta maior fortuna do mundo e o italiano mais rico fora da Itália. Seus 20 bilhões de dólares em valores de hoje seriam suficientes para garantir a sexta posição na relação de milionários da revista Forbes. A revista American Heritage contabilizou a riqueza de empresários de todos os tempos e converteu em dólares da atualidade. Concluiu que o homem mais rico de todos os tempos foi John Rockefeller, fundador da Standard Oil, que acumulou 190 bilhões de dólares com petróleo. Rockefeller e Matarazzo morreram no mesmo ano. O segundo homem mais rico de todos os tempos foi Andrew Carnegie, com 101 bilhões auferidos com ferrovias e siderúrgicas. No tempo em que Matarazzo e seus contemporâneos bilionários de todo o mundo viveram, a influência que eles tinham transcendia o campo dos negócios. Apesar de possuir 60 bilhões de dólares, o maior bilionário da atualidade, Bill Gates, não exerce nenhuma influência sobre os rumos da política nem da Califórnia, onde vive. Naquele tempo, era diferente. Para ficar num exemplo, acreditava-se que a fortuna do banqueiro americano John Pierpont Morgan, no início do século, poderia financiar por quatro meses todos os investimentos econômicos dos Estados Unidos. Quando Nova York esteve à beira da falência, em 1907, ele foi convocado para salvar a cidade. Na década de 30, o jornalista Assis Chateaubriand definiu o império do conde como o "Estado Matarazzo", por se equiparar em receita ao segundo "estado" brasileiro, que por pouco não empatou com São Paulo.



Matarazzo é um daqueles homens que conquistam um lugar na história ainda em vida. Até hoje, décadas depois que seu império saiu do mercado e seus produtos já não freqüentam as prateleiras, o sobrenome sobrevive no imaginário dos mais velhos como sinônimo de riqueza. Mas não é apenas de negócios que tratam os livros de Costa Couto. Há ali pedaço para histórias mais pessoais, digamos assim. De alcova mesmo. O escritor relembra que, em relação às mulheres, Matarazzo tinha a libido acesa. São vários os relatos de aventuras extraconjugais identificados na biografia. "Houve um caso marcante, dizem que com muitas juras de amor e pencas e mais pencas de flores", registra o biógrafo Couto. "Até de fruto falam. Um menino que ele teria mandado estudar na Itália." Um capítulo amargo da vida de Matarazzo foi a perda do filho Ermelino, em 1920, num acidente automobilístico em Turim. Era seu braço direito, escolhido como o sucessor. Mandara estudar na Suíça, dos 7 aos 18 anos. Em seguida, foi encaminhado para fazer estágio na França, na Alemanha e na Inglaterra. "Primeiro filho brasileiro, significava a certeza de uma sucessão natural, tranqüila, sem questionamentos familiares", diz Couto.



Como gestor, embora os resultados financeiros do grupo sejam impressionantes, não se pode dizer que Matarazzo tenha sido inovador. Atuava como os demais empresários de seu tempo. Empregava parentes e apaniguados, com preferência à contratação de italianos do sul, com quem a família mantinha laços e que cultivavam a gratidão. Mais da metade dos funcionários da organização provinha da região. No dia-a-dia, cumpria um ritual próprio de quem mantinha na cabeça a mesma cultura dos tempos da venda do interior, segundo a qual nada avança longe das vistas do dono. Matarazzo costumava dizer que só não chegava mais cedo à empresa porque a legislação não permitia. Era ainda o último a deixar o escritório, à noite. Nas manhãs de domingo, se reunia com diretores e gerentes. Jamais abandonou o hábito de visitar fábricas. Certa vez, numa das incer tas na linha de produção, observou um operário reclamar da falta de uma peça de reposição. Apontou para um armário. Lá estava ela. Gabava-se da memória que, descrita como "prodigiosa", considerava um trunfo, além da habilidade de fazer contas sem ajuda do lápis. Raramente ditava cartas ou recorria ao telefone. Memorandos internos nas fábricas eram escassos e minimalistas.



No escritório, era do tipo que colhia opiniões dos subordinados, mas no final decidia tudo sozinho, de forma centralizadora. As compras de matéria-prima de cada fábrica eram feitas pessoalmente por Matarazzo ou com seu conhecimento de preços e quantidades. Para ele, comprar era até mais importante do que vender pelos melhores preços. O estilo personalista e simples de conduzir os negócios era uma marca comum do emergente capitalismo industrial da virada do século passado. Atualmente, parece incrível, mas essas habilidades naturais e até intuitivas dos grandes pioneiros são estudadas como descobertas de guru. Os desbravadores do capitalismo não tinham modelo algum para seguir, nem consultores. Tocavam o negócio de ouvido. Como qualquer de seus pares, Matarazzo tinha de contar com a própria intuição e se virar para se manter atualizado. Seu posto de escuta predileto era uma confeitaria no centro de São Paulo, onde se reuniam empresários, advogados, funcionários públicos e fazendeiros. Ali ficava a par dos últimos mexericos da política e obtinha informações a respeito de oscilações de moedas. Estudioso dos titãs dos negócios, Richard Tedlow, professor na Harvard Business School, comparou trajetórias e chegou a um denominador comum das principais características de empreendedores, gente como Henry Ford, John Rockefeller, Andrew Carnegie e Sam Walton, entre outros. Ao lado de traços como dedicação radical à empresa, não olhar para trás e fazer mais do que o prometido, eles conseguiram intuir potencial de mercado e tiveram a coragem de apostar na sua visão de empresa. Eis um traço que não faltou a Matarazzo, um homem que foi capaz de apostar seu patrimônio no sonho do crescimento.

Produtos que o grupo fabricava

Açúcar; Álcool destilado; Amido de milho; Aparelhos de louça; Arroz; Azeite; Azulejos; Banha; Bebidas; Biscoitos; Esmaltes; Farinha de trigo; Formicida; Fósforo; Inseticida; Mandioca; Margarina; Marmelada; Massas; Milho; Mortadela; Óleo; Papel e papelão; Perfumes; Pregos; Presunto; Sabão; Sabonete; Sal; Sanitários; Saponáceo; Seda artificial; Soda cáustica; Tecidos; Tintas; Velas; Vernizes



Fonte: revista Exame

Nelson Blecher







Empreendedor do Século - Francesco Matarazzo

1o mais votado com 69,55%



Dá para imaginar a cena de uma típica família paulistana da década de 20. Na mesa do café da manhã, a banha enlatada, o açúcar e o presunto cozido servidos pela dona de casa ao marido e à numerosa prole tinham no rótulo um só emblema: "IRFM - Indústrias Reunidas Francesco Matarazzo." Na prateleira da cozinha, ela guardava amido Brilhante, arroz Iguape, azeite para saladas Sol Levante "o preferido pela sua pureza", lixívia São Jorge "sem rival para limpar cristais e panelas" e Licor Brasil, todos produzidos pelo imigrante italiano Francesco Matarazzo. Na estante do banheiro, um vidro de água de colônia Mimi, o sabonete Rex "que deixa sua pele acetinada" e ainda um frasco de perfume Sedução.



Onipresente

Enfeitava a cama do casal a colcha Princeza, que a dona de casa só lavava com sabão de coco "destinado para tecidos finos". A família usava roupas feitas com cortes da tecelagem Mariângela, uma das 365 fábricas que formavam o império das IRFM. À noite, as velas acendidas na casa eram da marca Progresso e o jantar era sucedido de uma dose de conhaque de gengibre Matarazzo. A onipresença da marca do imigrante no dia-a-dia dos brasileiros dá bem a idéia de seu poderio econômico. Nos anos 30, a renda bruta do conglomerado era a quarta maior do Brasil. Faturavam mais que Matarazzo apenas a União Federal, o Departamento Nacional do Café e o Estado de São Paulo.



Se desejássemos dar uma pincelada ainda maior de realidade ao nosso exercício de imaginação, poderíamos situar esta família de consumidores da marca Matarazzo no Brás, bairro paulistano nascido justamente para abrigar os trabalhadores das IRFM. Havia pelo menos sete mil lares que, nos anos 20, dependiam dos salários do industrial. Considerando que cada um de seus empregados tinha mais quatro bocas para sustentar, chegaram a depender de Matarazzo cerca de 35 mil pessoas, nada menos que 6% da população da capital paulista na época.



Com quase 1,90 metro de altura, Francesco Matarazzo era daqueles homens de elegância nata. Ficava bem em qualquer roupa que vestisse, mas durante a vida usou poucas coisas que não fossem ternos impecáveis. A fisionomia era típica dos homens do sul da Itália (nasceu em Castellabate, a 9 de março de 1854) e a calvície e o bigode sempre alinhado eram marcas registradas. Além do porte físico que lhe beneficiava - era difícil não se resignar diante de homem tão altivo -, impunha respeito com pouquíssimas palavras. Ninguém acreditava quando dizia que só concluiu o ensino fundamental. O pai morreu quando ele tinha 18 anos e, sendo o primogênito, abandonou os estudos para sustentar a família. No Brasil, encarnou a figura do "imigrante que deu certo", transformou-se num mito e foi idolatrado pela colônia italiana, à qual defendia com unhas e dentes.



No entanto, ao desembarcar no Rio de Janeiro, em 1881, tinha tudo para se desesperar. A tonelada de banha de porco que trazia da terra natal para comercializar aqui afundou com a embarcação que levava a carga do navio, por puro azar, pouco antes de aportar no Brasil. Sem perspectivas e com pouco dinheiro no bolso, a única esperança de se manter vivo era encontrar um velho amigo e conterrâneo, Fernando Gradino, que vivia em Sorocaba (SP). Meses depois escreveu para a família que deixara na Itália - a mãe Mariângela, a esposa Filomena, oito irmãos e dois filhos: "Abri uma venda em Sorocaba e não procurei, nem jamais procurarei, ter o que se chama de patrão." Empréstimos ajudaram-no a abrir o pequeno empreendimento. Na mercearia, as estantes viviam abarrotadas de produtos de todos os tipos - ele cismava em importar tudo o que aparecesse. Se a clientela pedisse alguma coisa que ele não tinha, tratava de arrumar mais que depressa. Por ironia, o campeão de vendas era a banha de porco importada, o mesmo produto que ele trouxera da Itália e repousava no fundo do mar. Era ingrediente de primeira necessidade para a conserva de alimentos.



"Ele não estava morrendo de fome na Itália. A idéia de tentar a sorte demonstra que tinha um temperamento inquieto e visionário", disse a ISTOÉ Andrea Matarazzo, atual secretário de Comunicação Social da Presidência da República e sobrinho-bisneto do imigrante. "Veio obstinado com a idéia de ganhar dinheiro e estava à frente de seu tempo." Na rabeira do sucesso de vendas da banha em seu armazém, decidiu fabricar o produto, já que porcos não faltavam. O método era simples: bastava um caldeirão no fundo do quintal para derreter a banha. "O segredo está na compra e não na venda", dizia o comerciante aos amigos, com a propriedade de quem sabia negociar no atacado como ninguém. Comprou quase todos os porcos da região e, além de baratear a produção, também revendia o animal. No início, entregava pessoalmente os barris, que eram devolvidos e repostos após a utilização. Mais tarde, veio a grande sacada: enlatar o produto.



Intuição aguçada

O negócio prosperou e, em 1890, suas pretensões já não ca-biam mais em Sorocaba. Quando partiu para a capital paulista, já tinha mandado buscar a esposa, os filhos e três irmãos - Guiseppe, Luigi e Andrea - em Castellabate. A intuição aguçada de bom empreendedor não lhe abandonava nunca. Quando a farinha de trigo faltou no País, Matarazzo não pensou duas vezes. Foi pedir ajuda ao London and Brazilian Bank para construir um moinho, em São Paulo, e seu faturamento cresceu absurdamente. Em 1887, a cifra chegava a 20 contos de réis, e em 1900, possuía 2.020 contos - um crescimento de 9.950% em 13 anos. Em 1920, ergueu o primeiro grande parque industrial do Brasil, na Água Branca, zona oeste de São Paulo. Numa área de 100 mil metros quadrados, reuniu serraria, refinaria, destilaria, frigorífico, fábrica de carroças, de sabões, perfumes, adubos e inseticidas, velas, pregos e outra dezena de indústrias, que funcionavam com a energia de uma usina própria. Nos anos 30, abriu filiais em Ponta Grossa (PR), João Pessoa, Rio de Janeiro, Santos e Curitiba.



Dizendo que o povo de sua terra possuía "inigualáveis força e capacidade de produção", nove entre dez trabalhadores que contratava eram de origem italiana. Ele próprio tratava de provar a tese. Por mais de 30 anos, foi o primeiro a chegar, às sete horas, e o último a sair da fábrica, 14 horas depois. "Era rígido e tinha comportamento exemplar para os funcionários. Considerava-se o operário número um", diz Andrea. Com muito sacrifício, a esposa Filomena conseguia impedi-lo de sair às cinco para pegar no batente, argumentando que nem só de trabalho vive o homem. Reza a lenda que, quase octogenário, numa de suas visitas diárias às indústrias, o velho ouviu de um operário a reclamação de que uma ferramenta qualquer estava inutilizada. Matarazzo resolveu: "Deve haver outra igual a esta, em estado melhor, naquele armário ali." O funcionário, duvidando que o chefe conhecesse tanto assim os milhões de armários de suas fábricas, foi conferir. E encontrou a peça. Matarazzo tinha uma só explicação para a proeza: "Intuição." Quem não sabe o que é dirigir um imenso complexo industrial e milhares de funcionários durante quase três décadas que duvide.



Se como administrador era um exemplo de sociabilidade - perdia tempo proseando com os empregados e tinha sempre uma história para contar nas reuniões de diretoria -, como chefe de família não se pode dizer a mesma coisa. Austero e pouco afável com os 13 filhos, fazia questão de manter a ordem em casa. A educação vinha em primeiro lugar e ai de quem ousasse desobedecer o patriarca.

Mas o carisma não se deixava ofuscar pela eterna braveza. Símbolo da elite industrial paulista, Matarazzo liderou os empresários das primeiras décadas deste século. Em 1928, fundou o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), do qual foi o primeiro presidente. No entanto, nunca concorreu a cargos eletivos - detestava discursar. Nas poucas vezes em que falou em público, o fez em italiano, mesmo porque nunca quis dominar o nosso idioma. A ligação com a Itália era muito maior do que a língua. "Ele teve dois amores na vida: a pátria onde nasceu e as Indústrias Matarazzo", disse a ISTOÉ Jorge da Cunha Lima, presidente da Fundação Padre Anchieta e autor do livro Matarazzo 100 anos. "Foi por causa da paixão pela Itália que recebeu o título de Conde." Durante a Primeira Guerra Mundial, o industrial mudou-se para o país de origem, onde foi ajudar no abastecimento das cidades mais atingidas. Pelos serviços prestados à nação, recebeu o título, embora a família, cuja tradição remonta ao século XII, carregue a nobreza no sangue.



Acertando os ponteiros

Se o sangue azul não o fazia sentir-se orgulhoso, também não o incomodava. Homem de poucas ostentações, sua única veleidade era a paixão por carros. Há quem jure que o primeiro Ford a circular na capital paulista foi o dele, que parava multidões quando circulava. Mas não surpreendia ninguém, porque o rigor dos horários do Conde fazia com que os populares soubessem exatamente quando e onde ele iria passar. A rotina era tão metódica que alfaiates, barbeiros, sapateiros e comerciantes em geral acertavam os ponteiros de seus relógios de acordo com as passagens do velho. Figura folclórica na cidade, foi personagem da célebre frase "Pensa que eu sou o Matarazzo?", resposta comum que os chefes de família davam às esposas quando os gastos passavam dos limites. Pudera, a mansão na Avenida Paulista estava lá, imponente, numa área de 12 mil metros quadrados, para quem quisesse ver. No portão principal, o brasão da família intimidava qualquer um que passasse em frente. A casa foi demolida nos anos 80 e parte do terreno hoje abriga um estacionamento.



Ruína

Antes dela ruíra a maioria das indústrias do patriarca. Os sucessores do Conde, o filho Francisco Júnior e a neta Maria Pia, não suportaram a concorrência que chegou com os anos 50. "A falha foi não ter percebido a mudança no cenário industrial. Era preciso se especializar. De que adiantava fabricar uma imensa variedade de produtos sem liderar as vendas de nenhum?", analisa Cunha Lima. Menos mal que o Conde não viveu para assistir à bancarrota. Morreu a 10 de dezembro de 1937, aos 83 anos, de uma crise de uremia (bloqueio repentino da circulação do sangue). Tinha o hábito de visitar diariamente pelo menos uma empresa de seu império. E só não conversava com todos os funcionários porque era tarefa impossível - o exército de trabalhadores era formado por 15 mil homens, em 365 fábricas, uma para cada dia do ano. Os operários, numa homenagem ao chefe, acompanharam o cortejo com uma faixa na lapela onde se lia: "Vida eterna ao Conde."



Fonte: Revista IstoÉ / Edição 1570 – Especial 10 – O Empreendedor do Século



Tire sua lição:

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